Paraná tem aumento de 561% de casos confirmados de dengue em 2024
- Julia Kaiser
- 26 de jun. de 2024
- 5 min de leitura
Atualizado: 5 de jul. de 2024
Três das cidades com maior incidência de casos não receberam doses para a imunização da população, entenda o porquê
O ano epidemiológico 2023-2024 apresentou um aumento significativo no número de casos de dengue no estado do Paraná. Se comparado ao ano anterior (2022-2023), houve um salto de quase 77 mil para mais de 431 mil, levando em consideração que foram observados os dados da última semana de maio de cada ano.
A dengue é uma doença transmitida por vetores, ou seja, o mosquito é transmissor do vírus. A doutora em biologia celular e molecular pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e especialista em saúde pública, Gabriela Cardoso Caldas, destaca: “A dengue é o que a gente chama de arbovirose, ou seja, uma virose transmitida por vetores artrópodes, no caso, do gênero AEDES. E ele tem quatro tipos de vírus: Dengue 1, Dengue 2, Dengue 3 e Dengue 4, do mais leve ao mais grave”.
No ranking dos locais mais afetados, Londrina lidera, seguida por Cascavel e Maringá. Confira a evolução dos casos no mês de maio dos últimos três anos epidemiológicos. A doutora reforça: “O que estamos vendo no cenário brasileiro este ano, é que normalmente a gente tem picos de casos de dengue entre março e abril, agora estamos tendo dengue o ano inteiro. Maio já era para a quantidade de casos estar diminuindo, mas isso não está acontecendo”.
Além do grande aumento no número de casos, em maio de 2024, morreram cinco vezes mais homens e sete vezes mais mulheres do que no mesmo período de 2023. Gabriela Caldas reforça: “A dengue é uma doença febril aguda autolimitada, ou seja, a maioria dos pacientes tendem a se recuperar. Mas uma pequena parcela evolui para casos de dengue grave, podendo chegar ao óbito”.
Incorporação da vacina da dengue ao SUS

(Banco de imagens - ENVATO)
A vacina para imunização contra a dengue (Qdenga), desenvolvida pelo laboratório japonês Takeda, foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em março de 2023 e incorporada ao SUS em dezembro do mesmo ano.
De acordo com dados recebidos via Lei de Acesso à Informação (LAI), entre fevereiro e abril de 2024, a Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente distribuiu as primeiras doses da vacina para a imunização dos paranaenses. Três das cinco cidades com maior incidência de casos não haviam recebido doses até o momento da resposta, porém locais como Jataizinho e Bela Vista do Paraíso receberam.
Segundo informações divulgadas pelo Ministério da Saúde, devido à pequena quantidade de doses disponíveis, foram priorizados municípios de grande porte e com um alto índice de transmissão. As cidades foram definidas após a análise das regiões. No entanto, a aplicação das vacinas não alcançou os 60% de aproveitamento, das 41.749 doses distribuídas, apenas 24.917 foram aplicadas.
A especialista em saúde pública afirma que a baixa adesão da população com relação a vacinação está relacionada à desinformação: “Vivemos um período de polêmicas com relação à vacina, então algumas estratégias precisam ser tomadas para a incorporação de novas vacinas ao SUS, o combate à desinformação, principalmente. O governo precisa fazer um esforço grandíssimo para educar a população novamente em saúde, porque esse é um dos principais motivos das pessoas não estarem se vacinando”.
Além da desinformação, existe o receio com relação a reação da vacina, porém esse é um resultado esperado: “A reação das vacinas, não vou dizer que sempre vai existir, mas o normal é que tenha reação. Até porque o corpo está recebendo um imunizante e o organismo precisa responder aquilo para produzir os anticorpos que vão perdurar no caso de você encontrar com aquele patógeno”, explicou Gabriela.
O imunizante, apesar de ser indicado para pessoas com idade entre quatro e 60 anos, está sendo distribuído pelo SUS às crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, devido a pequena quantidade de doses fornecidas pelo laboratório. Além disso, esse é o público que registra mais hospitalizações por dengue, atrás apenas dos idosos.
Wolbachia: Foz do Iguaçu recebe método inovador para o controle da dengue

(Banco de imagens - ENVATO)
O impacto da dengue nas cidades do Paraná é significativo e algumas medidas de controle podem auxiliar na redução de casos. A doutora em biologia celular e molecular Gabriela Caldas, destaca: “Não só para a dengue, mas para todas as arboviroses, a principal estratégia de prevenção e controle, é o combate ao vetor”.
A Wolbachia foi descoberta pelos pesquisadores a mais de uma década e é considerada uma forma inovadora de combate às arboviroses, no Brasil o estudo é conduzido pela Fiocruz e financiado pelo Ministério da Saúde. Esta é uma bactéria que está presente em cerca de 60% dos insetos e não infecta os seres humanos. A doutora Gabriela explicou que a ação com a Wolbachia começou em algumas cidades do Rio de Janeiro e os pesquisadores desenvolveram estudos para colocá-las no mosquito e soltá-lo, pois essa bactéria deixa o vetor infértil e controla a proliferação.
Após apresentar resultados promissores no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, a ação está sendo implantada em outras cidades e os iguaçuenses são os primeiros do Paraná a receber o novo método de controle.
As ações de combate à dengue não se limitam apenas aos avanços tecnológicos e podem ser divididas em individuais e governamentais: “A nível individual, temos diversas ações, como não deixar água parada. Isso é muito importante, parece bobo, mas não é. E a nível governamental, a gente tem que ter o fortalecimento de políticas públicas de saneamento, saúde, a coleta de lixo seletiva, o acesso à água potável, tratamento de esgoto e também os agentes de combate a endemias indo às casas”, reforçou a especialista em saúde pública.
Porém, a especialista em vigilância em saúde ambiental, Lucielly Fernandes Rosa, ressalta a dificuldade da busca ativa dos agentes de combate a endemias: “Ainda existe resistência dos moradores em receber os agentes por diversos motivos. E por várias vezes, os moradores que afirmavam estar com o quintal limpo se surpreenderam quando o ACE encontrou larvas em seu imóvel”. A especialista também destacou que o trabalho da comunicação é importante para que os moradores se sintam seguros ao receber os agentes em suas residências.
Aquecimento Global: um dos principais responsáveis pelo aumento significativo dos casos de dengue

(Banco de imagens - ENVATO)
No Brasil existe a circulação dos quatro tipos de vírus da dengue e a nível mundial, a desorganização climática. “Com o aquecimento global, a questão do aumento ou da queda brusca de temperatura, o aumento muito grande da quantidade de chuvas, as secas… tudo isso vai interferir no comportamento do mosquito” contou a doutora Gabriela.
A região sul e centro oeste, até 2008, eram as menos afetadas pela dengue, até mesmo nos meses de pico (verão), devido às baixas temperaturas ocasionadas pela isotérmica que estava presente no local. “Não tem mais essa linha isotérmica que protegia vocês do avanço do mosquito ou dificultava muito a proliferação do mosquito por conta do clima, não existe mais. Então a gente tem temperaturas extremas e chuvas prolongadas", complementou a especialista em saúde pública.
Lucielly Rosa, reforçou que: “O Aedes aegypti se reproduz em condições ideais, e a temperatura é uma condição para seu desenvolvimento. Com temperaturas mais altas, como temos visto recentemente, em torno de 20 a 30 graus, se torna uma condição que favorece a propagação do mosquito da dengue, devido a maior velocidade de desenvolvimento das larvas, atividades do mosquito e reprodução”.
A alta densidade populacional, as condições climáticas favoráveis e a urbanização rápida e desordenada são fatores determinantes para o aumento dos casos de dengue. Quanto às metrópoles, a aglomeração de pessoas e principalmente dos que vivem em regiões carentes, associados ao crescimento desordenado, dificultam o combate à dengue.
Os dados utilizados nesta análise foram coletados do Sistema de Informações de Agravos de Notificação (SINAN), mantido pelo Ministério da Saúde do Brasil, abrangendo a última semana de maio de 2022 a 2024.
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